Direção - Andy Muschietti
Roteiro - Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman
Fotografia - Chung Hung Chung
Direção de arte - Peter Grundy
Edição - Jason Balantine
Elenco - Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Tailor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dilan Grazer, Bill Skarsgaard...
Quando uma produção demora sete anos para ficar pronta e troca sucessivas vezes de diretores é um mal sinal, no entanto não é o caso de it - a coisa. Inspirado no romance homônimo de Stephen King sobre um grupo de jovens que vivem na cidade interiorana de Derry na qual estranhos acontecimentos começam a fazer crianças desaparecerem aguçando o sentido de exploração dos jovens se intitulam o clube dos perdedores e funciona como um título daqueles que são perseguidos pelos valentões e funciona como um porto seguro na assimilação das esquisitices que compartilham. No relativamente bom Mama Muschiette já mostrava boa mão, mas aqui ele tem total controle do gore e da relação afetiva demonstrada pelos jovens com um equilibrio bastante bom.
A fotografia é bastante límpida e agradável aos olhos e nos momentos mais escuros é bem executada sem esconder demais, com movimentos de câmera bastante lineares não mostra grandes feitos.
A direção de arte se destaca por nos ambientar perfeitamente nos anos 80, diferente do livro que trata dos anos 50, com um trabalho ótimo também na trilha sonora evocativa da época.
O elenco tem problemas, mais por causa do roteiro que esmiúça muito bem alguns personagens enquanto outros são puramente unidimensionais e caem de paraquedas na história, como é o caso do garoto Mike (Jacobs) que aparece no grupo tardiamente sem muito desenvolvimento, destoando muito do ótimo Ritchie (Wolfhard) que é falastrão, engraçado e imediatamente simpático, assim como o Eddie (Grazer) e sua hipocondria nos levam aos risos com facilidade, contudo toda a carga emocional recai sobre os ombros da ótima Beverlly (Lillis) que não é por coincidência tem o mais pesado dos dramas pessoais, Scarsgaard como o palhaço Pennywise é bem construído variando entre a histeria e a psicose na medida certa.
It - a coisa é um ótimo exemplar do terror não tratar seu público como idiota e nos deixa cliffhangers absurdos para sua continuação que apesar disso é já se torna muito aguardada!
CINEMA DIAGONAL
terça-feira, 26 de setembro de 2017
Mãe! (2017-EUA)
Darren Aronofsky - direção e roteiro
Matthew Libatique - fotografia
Andrew Weisblum - edição
Isabelle Iguai - supervisão de direção de arte
Deborah Jensen - direção de arte
Elenco - Jennifer Lawrence, Javier Barden, Ed Harris, Michelle Pfeifer, Domhall Glesson, Brian Glesson...
***Dividirei essa crítica em duas partes, sendo que a primeira sugiro que leia apenas depois de assistir ao filme por conter muitos spoilers!
Mãe é um filme intenso! Tendo dito isso saiba que falamos do criador de Requiem para um sonho. Nesse filme ele trata de assuntos filosóficos, metalinguísticos, mitológicos, metafóricos etc... Se você leu até aqui e não pulou para uma próxima crítica ou blog significa que você pode vir a gostar deste belo exemplar da sétima arte. Não que vá ser completamente revolucionário, visto que ele bebe nas fontes de Bergman, Polanski e Von Trier. Contudo o diretor imprime sua própria identidade e estilo ao longa.
O filme conta a história da mãe (Jennifer Lawrence) que reforma a casa enquanto seu marido, denominado apenas como Ele (Javier Barden) passa por um bloqueio criativo, o relacionamento deles tem carinho mas um certo distanciamento por parte dele. Quando de repente bate à porta deles um senhor se intitulando médico e estranhamente cai nos gostos do marido, a partir daí o filme degringola numa espiral de insinuações que despencam para agressões desembocando para limites dos quais nos sentimos cada vez mais horrorizados.
A direção do filme é firme e confiante daquilo que conta, somos conduzidos numa aventura vertiginosa de desespero e angústia do início ao fim.
A fotografia de Libatique constrói um lugar extremamente agradável e belo que vai se transformando em claustrofóbico e horrendo aos poucos, seja pela dessaturação das cores e ambientação ou pelos ângulos que quase sempre são muito fechados na protagonista, não deixando quase nada ser mostrado fora da visão dela.
A direção de arte é impecável mostrando ambientes belos e lúgubres com a mesma riqueza de detalhes, além das vestimentas não datarem demais a obra.
No campo das atuações a mais impactante não poderia ser outra que não a de Jennifer Lawrence, por ser o epicentro dos acontecimentos e o fio condutor reativo, e posso dizer que ela não decepciona nos entregando uma atuação muito digna e poderosa, Barden também sempre competente, por mais idiotices que cometa sempre que volta nos dá segurança e alívio. Ed Harris traz uma malícia e uma ingenuidade incríveis, Já Pfeifer com seu pouco tempo em cena nos hipnotiza com sua presença e nos faz encantados por sua beleza e enojados por suas atitudes.
A edição é competente sem cortes abruptos com fluidez necessária para não nos perdermos nos simbolismos. A edição de som faz um trabalho incrível de misturar vozes ou abafá-las, além dos sons diegéticos confundir-nos a todo momento, aumentando ainda mais a tensão.
Mãe! é um filme que nem todos vão gostar, mas é autoral, isso por si só já valeria o ingresso numa indústria já tão saturada de mesmices como a do cinema americano, porém ele ainda é uma viagem forte e pungente sobre um dos mais profundos alicerces que ajudaram a fundar a humanidade como a conhecemos hoje, para o bem e para o mal.
Parte 2 desvendando os simbolismos (spoilers)
Em algumas entrevistas o diretor já deixa claro qual era seu ponto de partida, falar sobre a mãe natureza e sobre como a massacramos sistematicamente, obviamente este é só o ponto de partida e dele se desvelaram diversas ramificações do comportamento humano.
A mãe pode ter dois significados mais latentes, o de personificação da natureza em si ou de musa inspiradora para o artista , assim sendo a casa passa a ser o seu recanto de inspiração ou sendo a própria Terra, nosso planeta. Vou tratar da primeira e depois falo da segunda. A ressignificação bastante pertinente liga-se ao último trabalho de Darren, Noé, no qual ele trata do tema de um deus patriarcal e ausente. Se entendermos a mãe como a mãe natureza, podemos presumir que ele é deus e assim sendo ela estava lá no início da gênese, os dois primeiros personagens intrusos são a personificação de Adão e Eva (Harris e Pfeifer) e seus filhos são Caim e Abel (os irmãos Glesson) que foram propositalmente escolhidos por serem irmãos na vida real e como na literatura o mais velho mata o mais novo por inveja. A poesia escrita por deus, suas palavras, só pode ser a bíblia, e o bebê é Jesus que foi atirado às pessoas que não o compreendiam plenamente e ao fim devoram o corpo de Cristo como em uma ceia. Em dado momento pessoas depredam e destroem a mãe natureza como na cena em que dois ficam sentados na pia e mesmo com incessantes chamados de atenção por ela feitos, primeiramente vem o dilúvio metaforizado pela água do cano da pia que estoura, além da aparição de um sapo como sendo um eco de uma das pragas do Egito e depois ela traz o fogo como propagado no apocalipse que conta que a segunda destruição do mundo viria com o juizo final e que seria com fogo. E ao final existe o ciclo novamente da mãe natureza se reinventando, visto que até a própria atriz é outra, para um novo processo de recriação.
Na segunda alegoria a mãe passa a ser a musa inspiradora e o personagem de Barden passa a ser o artista que invoca a sua musa para uma nova obra que demora a vir os personagens que se sucedem podem ser fatos ou pessoas que cruzaram seu caminho e que gradativamente começam a lhe dar com o que escrever, no momento que eles fazem sexo é momento sublime de feitura da obra de arte, dela pronta em si, contudo o ego do artista não o permite guardar para si a obra que ele cria maculando assim o momento que teve com sua musa, que não se conforma pois a partir daí a obra passa a não ser mais uma comunhão unicamente dos dois seres e passa a fazer parte do mesmo universo dos outros seres, o primeiro deles a editora, a musa já se sente negligenciada ou jogada de lado, e isso adentra num turbilhão de acontecimentos, pois mais e mais pessoas começam a vir até a casa e começam a usar as palavras do artista das formas mais ambíguas agrupando-se em até séquitos opostos, mostrando claramente como as pessoas podem deturpar algo que foi escrito para o que bem entender aquele que a ler. No terceiro ato é mostrado o nascimento do filho (obra de arte completa) e mais uma vez é maculada pelo ego do artista pois a mãe insiste para que ele retirasse as pessoas dali, numa tentativa para que ele não vendesse sua obra, um pedido em vão, pois no primeiro vacilo da mãe ele entrega a criança 9(obra) para as pessoas que a devoram sem pestanejar. Isso gera a revolta da musa que destrói o ambiente de inspiração sobrando apenas seu coração em formato de joia que é guardada pelo artista, que pode ser retratado como sua lembrança da obra e com isso inicia-se outro ciclo de criação com a musa aparecendo como no início mas com uma outra forma para inspirar novamente o artista.
Claramente podemos fazer paralelos com alegorias de relações abusivas ou sobre os perigos que a irracionalidade pode trazer à humanidade e é por isso que a obra de arte em si se mostra plural e sensacional de acordo com o olhar empregado sobre ela.
A primeira postagem da página!
A minha mais nova tentativa de demonstrar meu amor por todo esse universo nerd que tanto vivo mergulhado. Das outras vezes tive pouca interatividade com o público e isso me desmotivou deveras. Tentarei ser mais veemente nessa empreitada e buscarei escrever sobre tudo que assistir e de alguma forma me tocar.
Por vezes somos dissuadidos a desistir de fazer algo que amamos, seja pela vida, pelo tempo ou por quaisquer motivos, contudo é de extrema importância que você dê ouvidos aquela voz lá no fundo que nunca morre, sempre lembrando qual o motivo dela ainda estar lá no fundo espezinhando ou mesmo apenas como uma leve brisa em verões mais memoráveis.
Estou com 35 anos e sou professor de português, nessas idas e vindas da vida, algo que nunca me abandonou foi o cinema, sempre a me instigar e a me fazer refletir sobre eu mesmo ou sobre a humanidade na qual estou inserido. Seja bem vindo ao meu mundo e como eu o enxergo, espero que goste. Puxe uma cadeira, pois a viagem vai ser incrível!
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